UMA JANELA PARA O MAR

Quando o que mais importar for a cifra, ou o patrocínio; quando, ao invés de palavras, forem os números as principais notícias e objetivo de vida, estaremos vivendo em um mundo sem arte.


Em Vamos comprar um poeta, uma distopia materialista, Afonso Cruz nos apresenta uma sociedade que vive pelo consumo. As conversas durante o jantar se resumem à quantidade de passos dados, segundos gastos no trajeto, gramas consumidas. Não temos mais nomes, temos identificações numéricas (uma vírgula é luxo). É nesse mesmo mundo cercado por objetos patrocinados – da cadeira à cortina – que temos poetas, pintores, atores, bailarinos e escultores de estimação.


Com humor e críticas na medida correta, o autor português nos presenteia com a redescoberta das metáforas. São essas que conseguem transformar um sapato em “uma luva que se apaixonou pelas mãos erradas” e um verso em uma janela para o mar; mas também são essas que são consideradas mentiras, em um mundo no qual até o afeto é contabilizado.


Após a nossa família protagonista comprar seu poeta de estimação, mentiras, quer dizer, metáforas, começam a fazer parte do cotidiano. Estão no quarto do poeta, nos monstros (ou poemas) embaixo da cama, nas borboletas no estomago do irmão apaixonado, na janela para o mar... em, praticamente, todas as páginas do livro. São, justamente, essas comparações e “mentiras” que começam a transformar o mundo materialista em poético.


Trazendo essa grande metáfora ambulante para a nossa realidade, podemos identificar muitos absurdos presentes também em nosso mundo. Onde há enésimas tentativas de censura cultural (com afirmações de inutilidade), quanto tempo demoraremos a nos tornar apenas identificações, e não mais seres humanos? Quanto tempo demorará para que manuais de economia se tornem mais importantes do que livros de história ou literatura? Em nosso mundo (real), onde já nos dizem que cultura é apenas um nicho, desconsiderando todo o resto que não os agrada, já começamos a usá-la sem retorno. Como o autor descreve, começamos a gastá-la.


“Cultura não se gasta. Quanto mais se usa, mais se tem.”

Vamos comprar um poeta veio para preencher um vazio dentro de mim. Renovar as esperanças e aquecer o coração. Do mesmo modo que a mãe de nossa família, este livro “levou-me a repensar a minha posição no mercado da vida, quais meus dividendos, as minhas dívidas, e senti que precisava de mudar qualquer coisa”.


Afonso Cruz acerta, novamente, em cheio quando nos mostra que, ao se abandonar um poeta no parque, perdemos a capacidade de sonhar e acreditar na poesia.


Afonso Cruz - 1971 - presente


Além de escritor, é também ilustrador, músico e cineasta. Publicou mais de trinta livros, entre romances, teatro, não ficção, ensaio, álbuns ilustrados, novelas juvenis e ainda uma enciclopédia inventada, que conta com sete volumes. Colabora regularmente para jornais e revistas, e recebeu vários prêmios pelos seus livros, cujos direitos estão vendidos para vinte idiomas (informações disponibilizadas pela Editora Dublinense).