MEDO DO QUE SOMOS E DO QUE ESQUECEMOS

Todos nós temos aquelas lembranças que não valem a pena serem lembradas. As que marcaram uma fase, ajudaram a nos tornar o que somos, mas que fazem mal. Podem nos fazer sentir raiva, repulsa, saudade, medo. E, com uma sensibilidade impalpável e invisível, como o ar, Domenico Starnone traz, no romance Assombrações, à tona fantasmas esquecidos e indesejáveis.


Com setenta e cinco anos, Daniele Mallarico volta à Nápoles durante alguns dias para cuidar do neto enquanto sua filha e genro vão a um congresso. O que deveria ser uma tarefa fácil, se mostra extremamente exaustiva quando Mallarico se depara com a crise conjugal da filha, um neto que se julga um prodígio, a cobrança de seu jovem editor pelas ilustrações que comporão a edição de luxo de conto de Henry James.


Leia a resenha de Laços


Muito tempo depois de criar a filha, ou estar presente em sua criação, Daniele não possui mais a paciência necessária para cuidar de uma criança. Esta ainda se aproveita da ignorância do avô sobre as regras da casa para fugir da disciplina imposta pelos pais.

Starnone mostra o contraste entre gerações, a rápida mudança nos valores e responsabilidades, além da pressão da atualidade sobre diversos assuntos em diferentes idades. Mostra a briga de egos. O que é resultado de uma vida inteira de reconhecimentos; os que vem da hierarquia profissional; o que machuca com medo de ser machucado; e o que surge do privilégio da idade e enaltações de pequenas conquistas corriqueiras.

Assombrações é um livro sobre memórias. Principalmente sobre as ruins.

Divulgação: Todavia

Daniele, depois de uma vida inteira, de uma viuvez de mais de uma década, começa a se questionar sobre aspectos antes indubitáveis. E se tivesse seguido outros caminhos? Se tivesse prestado atenção e se dedicado? Se não tivesse se escondido atrás de uma habilidade? Se tivesse tomado decisões por ela mesmo? E se?


Enquanto deve cuidar de seu neto, no apartamento em passou a infância, a juventude e parte da vida adulta, o artista convive com os fantasmas do seu passado.


Scherzetto (brincadeira), o título original em italiano, não consegue traduzir a essência do livro do mesmo jeito que o traduzido. O enredo é muito mais sobre o passado do que as brincadeiras (sádicas?) do neto. Assim como Laços, primeiro livro da chamada trilogia sentimental (mas sem relação entre as histórias), Starnone nos presenteia com um choque de vida real.


DOMENICO STARNONE: 1943 - hoje



Escritor, roteirista e jornalista italiano. Trabalhou em vários jornais e revistas satíricas, incluindo L'Unità, Il Manifesto, Tango e Cuore. Em 2001, recebeu o Prêmio Strega, considerado o mais prestigioso da literatura italiana.





 

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