NÓS – LAÇOS

Atualizado: Abr 1

A definição de “nó” pelo dicionário Houaiss é: entrelaçamento de um ou dois fios, linhas, cordões etc., cujas extremidades passam uma pela outra, apertando-se. “Laços”, por sua vez: [1] nó corredio facilmente desatável, com uma, duas ou mais alças; [2] armadilha ou rede para apanhar caça; [3] estratagema que tem por fim lograr outrem; cilada; [4] pacto entre indivíduos ou grupos de indivíduos para determinada finalidade; aliança, vínculo, união.

A primeira coisa que pensei ao pegar o livro foi “144 páginas, leio em um dia.” Quem me dera.


Laços, do italiano Domenico Starnone (agora vou citar a tradutora do livro para o inglês, Jhumpa Lahiri, não por preguiça minha, mas sim por seu brilhantismo e destreza com as palavras) é um livro sobre conter e libertar. “(...) é um romance sobre o que acontece quando as estruturas – sociais, familiares, ideológicas, mentais, físicas – desmoronam. (...) é sobre nossas necessidades, coletiva e primordial, de ter uma ordem, e sobre nosso horror a espaços fechados (...).”


O livro narrado em sua maioria por Aldo, o marido de Vanda, e sempre no pretérito é o mais sincero e transparente possível. Sabemos de tudo, sem censura, diferentemente de seus personagens, que escondem segredos em lembranças, fotos e caixas. Segredos que não são nada secretos.


Nossos protagonistas estão saindo para uma semana de férias na praia. Seus filhos, Sandro e Anna, ficam responsáveis por cuidar do gato Labes e do apartamento. Só que nesse meio tempo alguma coisa acontece e, quando eles voltam para casa, o apartamento está todo revirado. A tranquilidade e o conforto de suas vidas desaparecem, junto com o gato e um segredo de Aldo. Em quanto separa as coisas quebradas e reorganiza o que sobra, o casal, há mais de cinquenta anos juntos, desenterra lembranças que deveriam ficar enterradas lembrando-nos que, às vezes o passado deve ficar no passado. Sem ser remoído. Sem ser lembrado.


Starnone, cheio de maestria, nos amarra à uma trama pesada, sofrida, personagens complexos e frágeis. Somos jogados em uma rede que está rasgada em certos pontos; remendada com durex em outros, e em alguns raros, costurada com fios frágeis e nós apertados. O autor tece, entre das e vindas, nós que apertam e estrangulam, laços que são desfeitos, situações que nos destroem, comodismo e conformismo, uma colcha de retalhos. Muito semelhante, tanto na escrita como no enredo, Laços nos lembra de Dias de Abandono, de Elena Ferrante. Só que desta vez, temos a versão do marido na maioria da narrativa. Aldo faz questão de nos mostrar que a verdade sempre tem dois lados. Sem qualquer relação entre eles, esses dois livros se complementam, se amarram e nos destroem.


É impossível não se reconhecer nessa família, ao menos em alguns momentos da vida, principalmente quando temos a versão de Anna sobre sua infância e a relação com seu irmão. O rancor, a necessidade de segurança, o desequilíbrio emocional, relações abusivas, adultério, o conceito de felicidade e infelicidade, desgaste familiar; tudo está presente em 144 páginas que não são nada fáceis de absorver.


DOMENICO STARNONE:


15 de fevereiro de 1943, Saviano, Itália –


Escritor, roteirista e jornalista italiano. Trabalhou em vários jornais e revistas satíricas, incluindo L'Unità, Il Manifesto, Tango e Cuore. Em 2001, recebeu o Prêmio Strega, considerado o mais prestigioso da literatura italiana.




 

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